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quarta-feira, 6 de março de 2013

Corações Desimpedidos - CAP. 08

Quando o táxi de Grace estacionou próxima a calçada na entrada do shopping, ela saiu do carro e colocou os óculos escuros aos olhos e jogando para o lado as mechas de cabelos que teimava roçar seu rosto ao sabor do vento do mar que soprava naquela tarde de sol ainda forte e que de certa forma ofuscava a sua vista.
De certa forma estava ansiosa, curiosa e um tanto aliviada também por estar naquele lugar que ela mal conhecia, mas que ouvira muito falar. Nunca havia estado antes em Angra dos Reis. Aliviada por ter a coragem de se depreender de casa onde nos últimos dias estava agoniada por causa das discussões constantes dos pais e por não agüentar mais ver de perto aquela situação. Ela – imaginava- estava ali á duas horas de viagem da Capital atrás de sua possível felicidade, “daquele” que poderia lhe proporcionar a vida que ela sempre sonhou ou pelo menos desejava nos últimos meses em que conversava com “ele” pelo Face.
Começou a andar pela calçada do shopping e entrou no saguão do shopping ansiosa. Havia combinado com a “pessoa” de se encontrarem ali naquele lugar e ele a buscaria. O lugar estava vazio e não havia muito movimento. Ela se sentou num banco próximo á uma das lojas do andar térreo na praça de alimentação e abriu o Facebook no telefone.
Seus gestos eram observados no parapeito lá de cima, e “ele” também abriu o telefone e já estava on-line desde muito tempo a espera do contato dela.
Grace sorriu discretamente e seus olhos pareciam brilhar quando “o” viu também on-line. E começou a escrever no Stargram:
_ Oi. Não te disse que vinha?
Ficou esperando a resposta dele.
Observou que “ele estava digitando...”. A resposta já estava a caminho.
_ Eu pensei que você não tivesse tanta coragem!
_ Quero te ver. – escreveu Grace freneticamente ao teclado do telefone. -onde você está?
“Ele” saiu do parapeito do andar de cima onde a observava e em vez de descer as escadas para a direção onde ela estava, saiu apressadamente em direção ao pequeno cais ali em frente ao Shopping no externo e se encaminhou para o píer.
Grace sentiu que ele estava demorando a responder e resolveu ligar. Ela tinha o número “dele”.
“Ele sentiu o telefone vibrar e tocar no bolso, mas não atendeu imediatamente, pois tinha algo a fazer. Na verdade “ele” queria surpreende-la.
Grace ficou um tanto trêmula de ansiedade e se levantou olhando para os lados ansiosa. Não sabia se caminhava ou ficava parada ali. O telefone não atendia e isso a deixava inquieta.
Sentou-se de novo e abriu o Face novamente.
Ela viu que “ele” ainda estava on-line. Mas porque razão “ele” não atendia o telefone? - se perguntava ela.
*
Dorothy chegou mais que depressa no apartamento de Gizelle depois do expediente no escritório e não só estava curiosa para saber o que aconteceu e intrigada do que poderia ter acontecido entre ela e Daniel. Será que Daniel deixou mancada e houve algum desentendimento com Gizelle? Ele saíra lá do escritório naquela tarde tão decidido a tomar uma atitude a mais para conquistar Gizelle? O que será que aconteceu? – se perguntava Dorothy.
Gizelle veio recebê-la á porta ansiosa e sua expressão era de aflição.
_ Ô amiga. To aqui. Fala. Você tava tão nervosa ao telefone.
_ Obrigada Dorothy por ter vindo aqui. Eu to precisando desabafar. Muito...
As duas se sentaram e ficaram de frente uma para a outra.
_Dorothy... – começou Gizelle, mas se referindo a Zeca. - aconteceu amiga! Ele veio aqui e...
_ Veio??? – Interveio Dorothy surpreendida, mas se referindo a Daniel, mas não quis falar ainda que dera o endereço a ele.
_ Eh, ele veio aqui entrou por essa porta e aconteceu o que não esperava.
_ Como não esperava, amiga? Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer mais seriamente. Gizelle você está sendo muito dura.
_ Ele me disse algumas palavras, me agarrou, me beijou e...
Um sorrisinho despontou do rosto de Dorothy ao ouvir aquilo.
_ E então? – falou Dorothy – Vai continuar reticente, de coração fechado, não dando chance a você mesma de ser feliz?
_ Eu não o quero mais, Dorothy! O meu coração parece se abrir, e eu começo a viver uma inquietude por causa de outra pessoa que você sabe quem é. Pela primeira vez estou confessando isso a você abertamente.
__... Ah, é?! – Dorothy ficou mais surpreendida não entendendo muito bem ainda e se levantou.
_ Amiga me ajuda! Estou tão confusa! Ainda mais do que aconteceu hoje à tarde aqui. Eu só o quero como amigo! Eu estou definitivamente apaixonado por outra pessoa.
Dorothy estava mais intrigada ainda com aquela conversa de Gizelle e não estava entendendo mais nada. E falou:
_ Olha amiga, eu tenho que te falar uma coisa. _ se sentou novamente ao lado dela ao sofá, dizendo. _Ele conversou longamente comigo lá na repartição hoje á tarde e eu vi a sinceridade do coração dele. Sei que ele te ama de verdade e resolvi ajudá-lo. Eu o incentivei a vir aqui e abrir o coração prá você.
Gizelle se levantou olhando para a amiga intrigada.
_ Você ta louca, Dorothy? Como é que você pode fazer uma coisa dessas?! Eu não quero esse cara na minha vida. Nunca mais.
_ Mas Gizelle, não faça isso. Ele é a chance de você ser feliz. É capaz de tudo por você! Eu sei, eu vejo nos olhos dele e nas atitudes dele que... Que ele quer você. Ele te ama de verdade, entende?

Gizelle estava confusa e não estava entendendo a amiga e suas palavras. E logo ela que sabia tudo o que ela passou.
_Não, Dorothy, você só pode estar brincando comigo!
_ É verdade! Ele saiu lá do escritório tão resoluto, tão decidido! Eu sabia que ele vinha aqui falar contigo e pensei também que você ia acabar de uma vez por todas com essa intransigência com o rapaz.
_ Dorothy, pelo amor de Deus Pare com isso! Eu amo o Daniel!!!
_ E é dele mesmo que eu to falando!
_ Como assim? Aqui??? Ele vinha aqui??
_ Sim, o Daniel! Ele tava vindo prá cá falar contigo. Não foi ele que te deixou assim nervosa e inquieta como você está agora?
Gizelle levou a mão ao rosto pasmada e mal podia acreditar nessas últimas palavras de sua amiga.
_ O... O Daniel?!
_ Que foi Gizelle? Afinal de contas você ta falando de quem? O Daniel não esteve aqui?
_ Eu to falando do Zeca, Dorothy. Foi ele que esteve aqui me pedindo prá voltar e quase me beijando a força.
"Daniel não veio. Não cumpriu o que prometeu!" – pensou Dorothy olhando para Gizelle também pasmada.
_ Eu amo Daniel, Dorothy. Eu admito isso. E tudo o que eu queria nessa tarde é que ele tivesse do meu lado e entrasse naquela porta e me dissesse tudo o que tinha para me dizer. Dessa vez eu acho que não iria resistir!
Dorothy, ouvindo aquilo não podia agora imaginar o que poderia ter acontecido. Porque será que Daniel não veio?_ ela tentava entender.

*

Zeca parecia deslizar nas nuvens em cima de seu skate indo para aquela praça onde sempre se reunira com sua galera, inclusive com seu brother mais próximo, o Murilo que também é skatista. E naquela tarde ele se encaminhava para lá fazendo manobras inacreditáveis em meio às pessoas e estava radiante com a situação que viveu.
Pelo menos conseguira se abrir com Gizelle e tomá-la em seus braços para lhe dar o beijo tão desejado.
Quando ele chegou na praça a galera estava reunida e ele continuou a deslizar com seu skate até a rampa de treino e começou a fazer manobras como nunca fizera antes na frente dos amigos demonstrando a sua euforia. Seus amigos, e principalmente seu mano mais próximo, o Murilo percebeu que algo tinha acontecido e que Zeca estava não querendo se aparecer, mas extravasar alguma coisa, algum feito e sabia que ele não tava bolado não. Acontecera alguma coisa muito boa e ele não sabia o que.
Logo que Zeca deixou a rampa e deu um salto apanhando o skate no ar, os amigos vibraram e deram urros e ouviram-se aplausos.
Murilo logo deu um tapa nas costas dele.
_ E ai, leke. Que bicho te mordeu prá você chegar aqui assim?! E olha que eu te conheço muito bem. Coisa boa acontece, hein?
_ Pô, cara não podia ter sido melhor.
_É. Não podia ter sido mesmo. Faz um tempinho que você não usa o seu skate. Por que o show hoje cara?
_Vou te contar o motivo da minha alegria. _ Valeu rapaziada!!! – disse Zeca falando para os outros e começou uma série de cumprimentos. Mas aquele assunto era estritamente particular e só podia falar  mesmo com Murilo que era seu brother mais próximo.
Foram para uma lanchonete próxima dalí e sentaram numa mesa ao livre e pediram suco para os dois. E quando estavam frente um ao outro, Zeca ainda com afeição se recompondo depois da série das manobras de Skate.
_ Alguma coisa muito especial aconteceu, leke. È difícil te ver assim cheio de gás._ disse Murilo.
_ Aconteceu sim, cara. E hoje eu dei o meu primeiro passo. Dei o meu ataque como assim dizer.
_ Você ta falando da Gizelle, né? Sua ambição é voltar prá essa mina. Sempre foi. Você não consegue abrir mão dela.
_ Eu fui até a casa dela e aproveitei que a turma ai ta reunida e mobilizada por causa da Grace e fiz o que tinha que fazer. Sabia que ela tava muito preocupada, precisando de alguém e nesse momento de fragilidade dela eu fui fazer a minha parte. Aproveitei pra me declarar prá ela e tentar convencê-la a voltar prá mim.
_ Desculpe ai, amigão – sentenciou Murilo_ Porra cara, pensa ai, você fez uma molecagem com ela antes, né? _ Você acha que vai ser fácil conquistar ela assim de uma hora prá outra?
_ Cara eu cheguei lá e fiz o que tinha que fazer. Abri meu coração prá ela e não deixei por menos não. Fui bastante sincero com ela e mais...
_Mais o que, Brother?!
_ Ela não resistiu quando eu a peguei em meus braços e dei um beijo.
_ Você ta louco? Na boca?
_ E onde seria então?
_ Cara a Gizelle ta escaldada contigo. Eu não vou acreditar que ela te deu essas confianças!
_ Eu peguei ela nos meus braços, cara! E mal ela se deu conta já tava em meus braços.
_ Cara você pirou. Beijou a mina á força?
_ Não cara! Não foi à força. Eu fiz o que tinha que fazer. Dei logo a minha cartada. Cara entenda, eu não quero perder essa garota, quero voltar prá ela reatar o que nós vivemos no passado e voltar a viver numa boa com ela.
_ Leke, você fez muita molecagem com a garota, cara! Sei não!
_ Eu confio no meu taco, brother.
_ Sei não, leke_ continuou Murilo incisivo.
_ Que quê há Murilo, ta dando contra é?!
_ Não leke, não se trata disso! Mas como teu amigo, irmão e brother vou logo te avisando. Gizelle amadureceu muito com as pancadas que ela levou ultimamente e ela não vai ceder fácil assim não. E tem mais...
_ Mas o que?
_ Tô sabendo aí que tem um camarada aí que ta afim dela também.
Zeca dá um sorrisinho maroto.
_Na boa, isso é algum plano seu pra afastar a Giselle desse rapaz. Porque se for cara, acho que você vai perder feio.
_Murilo, e se for meu amigo? A Giselle vai ser minha cara e eu perdi tempo demais entende? Eu vou fazer ela comer na minha mão.
_Só não conte comigo pra reconquistar a Giselle.
_ como é que é?- Zeca franziu a testa e olhava nos olhos de Murilo intrigado - que é que você ta querendo me dizer, cara?
_ É isso que você ouviu brother! Giselle sofreu demais no primeiro relacionamento dela e eu não quero que você faça nada que a prejudique. Esqueça a Giselle e parte pra outra!
Zeca quase deu um salto da cadeira.
_ Eu não posso esquecer da mulher que amo. Não mesmo!
_ Você vai se dar mal nessa história mano. Segundo fiquei sabendo o Daniel é o cara que trabalha na mesma empresa que ela e que ta afinzaço dela. Eu to te falando isso que é prá você não confiar tanto no seu taco assim não. Você pode perder a vez pra esse cara falou!
Zeca ficou assustado com aquilo e no fundo aquilo o abala, mas tenta não demonstrar.
_ Quem é esse, vacilão, Murilo. Fala prá mim, irmão!!! Eu preciso vê-lo cara a cara.
_ Eu não conheço não. Só sei que trabalha na mesma repartição e seção que ela. _diz Murilo, sério.

*

Mais tarde, Alda e Emiliano estavam no carro e estava indo para a delegacia. A situação já estava insustentável. Depois daquele telefonema intrigante e rápido de Grace, Emiliano achou melhor dar parte na polícia antes que algo grave acontecesse. Mas Alda estava um tanto reticente quanto aquela atitude brusca do marido.
_ Mas Emiliano, você não acharia melhor avisar os amigos dela e falar sobre a ligação dela? Afinal de contas eles estão ajudando e precisa saber do que aconteceu que ela ligou. Principalmente Gizelle.
_ Eu sei, Alda, eu não to menosprezando  a atitudes e as preocupações dos amigos de nossa filha, mas acontece que já temos uma pista que é a ligação dela e a polícia pode fazer um rastreamento pelo telefone lá de casa de onde ela ligou. Já que Grace se recusou a falar onde ela está, eu acho melhor nos adiantarmos a tomar providencias mais enérgicas antes que aconteça o inesperado, sei lá o quê. Eu também quero minha filha perto de mim e não solta aí no mundo.
_ Concordo com você. Mas ela não te falou mais nada depois daquela hora que ela te falou as primeiras palavras no telefone?
_ Já te disse, nada/nada. Só disse que ta bem e não quis dizer onde estava e com quem. Isso não pode ficar assim. Vamos agir logo antes que aconteça alguma coisa pior.
Logo, chegaram e estacionaram o carro na porta de uma delegacia de polícia mais próxima.

Grace demorou a entender o que estava acontecendo. Será que o rapaz que ela conversava sempre no bate-papo do Facebook estava querendo pregar uma peça nela ou fazer mistério?  Ela não estava tão apavorada, até porque para estar ali, tão longe de casa vivendo aquela aventura estava preparada para e disposta a qualquer coisa, a despeito até das preocupações de seus pais.
Demorou um pouco. Ainda teve tempo para que ela pedisse um sorvete num quiosque próximo onde ela estava sentada e depois decidiu a voltar para o mesmo lugar onde sentara a primeira vez. Preferiu ficar ali, pois falara no Face com “ele” onde estava e com que roupa estava vestida. Falara que estava com a mochila também com alguns pertences e que estava disposta até a ficar com ela algum tempo se necessário e dependendo do clima entre os dois.
Quase no fim do sorvete, o telefone toca novamente, e Grace atende com pressa:
_ Oi!!!
_ Vem pelo corredor que tem à sua frente à esquerda que você vai sair fora do shopping – falou “ele” do outro lado da linha_ e você vai dar no píer onde fica os barcos e alguns iates guardados. Vem andando que eu vou te encontrar.
O coração de Grace disparou de ansiedade. Finalmente ia conhecer de perto o seu “amigo” que ela conversara tanto com ele na Rede e poder estar frente a frente com ele e quem sabe até... Tocá-lo, estar bem juntinho dele e ouvir pessoalmente as promessas de amor e carinho que tanto a traiu para ele no bate-papo do Facebook á ponto dela estar ali louca atrás dele, há mais de duas horas de viagem de sua cidade capital.
Grace caminhou até fora do saguão interno do shopping e viu que estava diante do mar azul á sua frente com a visão da Ilha Grande ao longe e á esquerda via-se um píer cheio de pequenas e médias embarcações conforme o “rapaz” havia instruído que ela se dirigisse.
Ela só tinha que ir andando que ele logo ele a encontraria.
Quem sabe no fim do cais?
O calor da tarde ainda fazia se sentir na localidade mas era abrandado pelo vento sudoeste que soprava do mar e fazia esvoaçar os cabelos loiros de Grace.
De um barco ali bem próximo ele via aquela loirinha com os cabelos esvoaçados pelo vento se aproximando e viu que ela era mais bonita do que a foto que ele via no fácil todos os dias em que conversava com ela.
Daí “ele” viu que era a sua hora.
Mal Grace avistou, ouviu um assovio vindo de uma das embarcações de médio porte. Na verdade era uma lancha potente e grande típico de um Iate de luxo. Quando ela virou e viu aquele rapaz loiro de cabelos igual aos dela também dourados, mas com detalhes para seus olhos castanhos e flamejantes olhando para ela, ela quase não podia acreditar no que estava vendo ali na sua frente.
_ Ele é lindo!- pensava ela olhando para ele que vinha em direção dela saindo do convés do barco de sunga e peito à mostra e com um copo de coquetel na mão.
Grace mal podia acreditar vendo aquele rapaz saindo daquela maneira vindo recebê-la saindo de um Iate de luxo ali nas Marinas.
_ Oi – se aproximou ele com a taça de coquetel na mão chegando bem perto dela. Já tava muito tempo esperando por esse momento! Bem vinda!
_Oi._ Grace parecia embriagada de surpresa. Eu sou Grace!
Ele sorri com o jeito dela e responde: _eu sei disso!
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